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O Catenaccio

O Catenaccio

Nesta rubrica damos a palavra a redatores convidados, que queiram expressar a sua opinião sobre qualquer tema relacionado direta ou indiretamente com o futebol.

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Recebi o convite para participar no Suplentes de Luxo, o qual agradeço. Sempre gostei de discutir futebol e perceber as diversas visões que existem sobre esta “modalidade”. A verdade é que fiquei meio apavorado por não saber sobre o que escrever. Com o futebol parado, deixa de haver grande tema de discussão. Mas quando estava deitado no sofá a ver o telejornal da hora de almoço, mais concretamente as notícias de futebol, surgiu um tema que me fez espécie na cabeça.

O que se passou com o Proença, afinal? Ao que parece o presidente de uma entidade que de nada serve para o futebol sugeriu que o resto do campeonato fosse transmitido em sinal aberto, à partida para bem de todos os amantes do futebol, como todos nós somos. Eu não tenho problemas quanto a esta proposta, mas pelos vistos há quem tenha. Os clubes, imagino até quais foram, criticaram as cartas enviadas por Proença ao Presidente da República e ao Ministério da Economia. A primeira impressão que tiveram sobre isto foi má porque não lhes cheirou a “massa”. Por causa desta discussão que, a meu ver, não tem cabimento, Pedro Proença quer sair do cargo e a NOS admite que não vai renovar o contrato de patrocínio da Primeira Liga.

Sei que o presidente da Liga de Clubes deve zelar pelo melhor dos clubes que representa, e julgo que não serão só Benfica, Porto e Sporting, mas acabo por perceber o pensamento de Pedro Proença. Entendo a proposta de Proença como algo positivo para quem joga e para quem vê. Começando pelos adeptos, obviamente saem a ganhar por assistirem a futebol em canal aberto, sem necessidade de uma subscrição de um canal que já é mais caro do que aquilo que vale. Quem sabe se a quantidade de espectadores de futebol aumentava com esta medida. Do lado dos clubes, dos protagonistas disto tudo, vejo que também há vantagens, não a curto prazo, mas a médio prazo, no máximo. Se o número de espectadores aumentar, o número de apoiantes do futebol aumenta, quando for permitido voltar aos estádio, o número de espectadores presenciais aumentará, os clubes aumentarão receitas de bilheteira, etc. Com esta medida só não podem esperar que pisquem os olhos e façam milhões de lucro. Sei que o “carcanhol” não abunda em muitos clubes da Primeira Liga e que direitos televisivos sempre sabem melhor do que 20 euros por bilhete – em certos casos. Os grandes barcos que têm precisam de dinheiro para andar para a frente. Mas pensem no que será feito dos clubes das ligas semiprofissionais e amadoras, que não têm nem um terço das fontes de rendimento que os outros clubes têm e que viram o investimento feito nesta época sair roto. Nesta fase é que vai ser bonito de ver quem é capaz de fazer uma gestão mais cuidada e perceber quem tem jeito para a coisa, ou se calhar vai ser a desgraça total.

O fim do patrocínio da NOS acaba por ser o mal menor disto tudo. Afinal, acabam por estar do mesmo lado dos clubes na barricada. Quando se aperceberam que ia deixar de haver lucro neste negócio, saíram, o que é totalmente legítimo. Só acho piada o facto de justificarem esta ação com a “total satisfação dos resultados obtidos com esta parceria”, o que me cheira a mentira. Mas no final o que não falta por aí são marcas com valor e interesse para patrocinar a liga e que não se recusam a cumprir todos os planos do negócio.

Defendendo Proença uma vez na vida, a Liga de Clubes acaba por servir para nada, zero. Como António Oliveira já denunciou há anos e acabou ignorado, o cargo de presidente da Liga de Clubes é como uma porta para a Federação de Futebol. Por alguma razão Luís Duque, um homem sincero, honesto e responsável (humor) atirou-se de cabeça para o cargo há uns anos. Quando a pressão aumentou, saltou fora do barco. Pedro Proença acaba por não passar de um fantoche de alguém com interesses que “infelizmente” saíram furados por causa do vírus, e não só. O tema ganhou ainda mais valor quando o Benfica anunciou a saída da direção da Liga, o que a mim nem me aquece nem me arrefece.

Toda esta polémica só veio provar que o futebol deixou de ser uma modalidade, passou a ser de uma vez por todas um negócio. Fala-se cada vez menos de táticas, de fintas, de clássicos, das razões pelas quais nos apaixonámos pela bola, e o tema central quando futebol é conversa é cada vez mais o dinheiro. Gosto imenso de futebol. É uma paixão que tenho e que foi crescendo com o tempo. É no futebol que tanto eu como outras pessoas encontramos uma fuga, uma distração. E se calhar é por isso e por tudo aquilo que escrevi neste texto que tenho um bocadinho de pavor de pensar no seu futuro.

 

Redigido por: Tiago Antunes

Cartoon por: Tiago Góis

 

 

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